quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ler e aprender

«Sempre aprendi que a nossa fonte é a leitura. Ler e aprender, venha de onde vier a verdade, porque as sementes do verbo estão para além da Igreja. Deus não é prisioneiro da Igreja nem dos sacramentos»

José Manuel Cordeiro, AQUI

domingo, 23 de outubro de 2011

As ideias são anunciadas, formuladas, combinadas e desenvolvidas, como se de motivos musicais de uma partitura se tratasse


«Para situar devidamente o seu pensamento, seria ainda necessário citar toda uma plêiade de autores, seus conterrâneos, e toda uma tradição de investigação científica no campo das disciplinas teológicas e afins, realizada com grande vigor e exigência na pátria do Papa, assim como a conhecida profundidade e vitalidade do pensamento filosófico, profundamente enraizado e intensamente presente em toda a cultura alemã. Também os interesses que Ratzinger sempre partilhou com Hans Urs von Balthasar, no âmbito da literatura e das artes, contribuíram e continuam a contribuir, largamente, para definir a sua riquíssima personalidade cultural. A isso se junta a sua origem na Baviera, numa região não muito afastada da pátria de Mozart, o que poderá porventura explicar a existência, para além das óbvias diferenças, de uma certa afinidade com o músico austríaco, como a clareza e a leveza do seu estilo. Esta aproximação ganha alguma plausibilidade quando sabemos das preferências musicais de Ratzinger, que, além de Mozart, incluem naturalmente também Johann Sebastian Bach, e quando verificamos a semelhança do seu pensamento ao de St. Agostinho, cujo modo de compor tem algo de muito próximo da criação musical, segundo a conhecida interpretação de Henri-Irénée Marrou. As ideias são anunciadas, formuladas, combinadas e desenvolvidas, como se de motivos musicais de uma partitura se tratasse.»

sábado, 15 de outubro de 2011

Todos habitantes da mesma polis


«Se continuarmos a confundir a segurança com a exclusão de toda a diversidade, se continuarmos a alimentar os nossos medos em vez de os defrontarmos, se pensarmos poder sair das dificuldades não em conjunto, mas contra os outros, em particular os mais fracos, estamos a preparar um futuro de sinistra barbárie, encaminhamo-nos para um beco sem saída em que o homem será, cada vez mais, lobo para o homem.
Está, porventura, a tornar-se tragicamente verdadeira também para nós a situação descrita de modo figurativo pelo famoso mote da sabedoria indiana, que parece modelado pelos apotegmas dos monges do deserto: dois lobos lutam dentro de cada um de nós e na nossa sociedade, um cheio de raiva e rancor, de ressentimento perante o diferente, o outro animado de compaixão e amor inteligente.Também, desta vez, prevalecerá o lobo que melhor soubermos alimentar no nosso quotidiano.»

Enzo Bianchi, in Para Uma Ética Partilhada.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Hoje não há vagar


«[...]
Faz falta que possam ser lidas [as homilias] com mais vagar. Só que hoje não há vagar. Corre tudo muito depressa. E as palavras pronunciadas, muitas "leva-as o vento" e não regressam. A não ser que haja possibilidade de as retomar e fazer fermentar. Porque de fermento se trata, fermento que leveda a massa, se nela penetrar.

Hoje não se lê muito
. Anda tudo nas redes da comunicação on line. Mas não passou de moda o livro. Nem passará. Porque tem séculos de vida e já se percebeu que nada o pode substituir.
[...]»

João Miranda Teixeira, in «Apresentação» de É Este o Tempo - A experiência da missão, de Manuel Clemente.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A crise e o futuro

 
«A presente crise tem carácter estrutural e sistémico e nela se confundem e interagem a dimensão económica e financeira com o carácter civilizacional, antropológico, cultural e axiológico. Por isso, ela é tão perturbadora, grave e imprevisível nas suas últimas consequências. Mas também, e por isso mesmo, tão desafiante quanto a um futuro melhor que, a partir das suas raízes, podemos construir.»

Manuela Silva, in Ouvi do Vento.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Pontifical


«[...]
Antes de prosseguirmos, impõe-se esclarecer o título da obra: Pontifical de Luxo / Brácaro-Romano: Ms. 870 do Arquivo Distrital de Braga / [1485-1516], que revela as três grandes partes que a integram,e passamos a explicitar para todos sabermos de que se está a falar:
Pontifical - trata-se do livro, essencialmente, constituído pelos textos das missas e bênçãos, utilizados nas celebrações presididas pelo Arcebispo (pontífice), ao longo ano litúrgico;
[...]»

José Marques
Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 

Membro da Academia Portuguesa de História 
(Excertos da apresentação do livro, em Braga, no dia 26 de Junho de 2011. Ler mais AQUI.)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

José Augusto Mourão (1947-2011) - O frade que trouxe a semiótica para Portugal


«Foi músico, poeta, professor, tradutor de Proust, investigador. E, além de tudo, frade dominicano. Homem despojado, queria “net-monges” e olhava para a estética como central na experiência cristã contemporânea. Morreu quinta-feira [5 de Maio de 2011], em Lisboa.

Num dos textos de A Palavra e o Espelho (ed. Paulinas), escrevia José Augusto Mourão: “A vida tornou-se texto a partir do meu corpo. Já sou texto. A História, o amor, a violência, o tempo, o trabalho, o desejo, inscrevem-se no meu corpo.” A vida de José Augusto Mourão, nascido em Lordelo, Vila Real, em 12 de Junho de 1947 e que morreu quinta-feira passada, em Lisboa, tornou-se texto a partir do seu corpo.

“Nós somos corpos saturados de texto, arquivos do corpo abandonados à traça, sem memória, textos enterrados ou que já não fazem andar, não movem, não comovem. Que fizemos do testamento do amor? Que fazemos da promessa da novidade?”, escrevia ainda, naquele artigo que reproduzia uma das suas homilias.

Vivia entre dois mundos, este homem discreto, tímido: “É o mundo da palavra – a minha paixão – mas uma palavra que tem uma fronteira. Estou entre esse mundo, o mundo de Deus, e o mundo dos homens – que não há outro.”

Era uma vida polissémica, tal como o seu objecto de investigação universitária. Professor e investigador, académico reconhecido, foi um dos introdutores da semiótica em Portugal. “É um dos nomes de referência nesta área”, diz ao P2 Maria Augusta Babo, professora na Universidade Nova de Lisboa (UNL), onde foi colega de Mourão durante mais de década e meia.

Havia ainda, então, o mundo de Deus. Era frade dominicano. A sua vocação religiosa, aliada ao trabalho sobre a palavra, levou-o a escrever poesia (reunida em 2010 em O Nome e a Forma, ed. Pedra Angular), além de centenas de textos para cânticos litúrgicos. Mas, apesar das múltiplas vias da sua vida, nem a sua personalidade se fraccionava nem ele procurava impor a sua fé. “Nunca foi impositivo”, reconhece Babo.

Este percurso singular, original, começou em Lordelo. A mãe morreu-lhe tinha José Augusto quatro anos, o pai era professor primário e, “situação quase inconcebível numa aldeia daquele tempo, não era sequer praticante”, contou numa entrevista a Maria João Seixas, na «Pública» de 8 de Junho de 2003. Tinha mais quatro irmãs.

No final da primária, José Augusto foi para o Seminário de Vila Real, após o que demandou o Porto, para estudar teologia. Constou então que ele se rebelara contra o bispo de Vila Real. Por isso, outro bispo, o de Nampula (Moçambique, ainda uma colónia), Manuel Vieira Pinto, acolheu-o durante dois anos para trabalhar na formação de líderes cristãos locais. Antes de partir, outro bispo, D. António Ferreira Gomes, dissera-lhe num pequeno almoço: “Você é um esteta. Não vá para a tropa, que entorpece a sensibilidade.”

Mas, em 1972, Mourão foi para Moçambique. Viu-se importunado pela PIDE, sob o argumento de que “andava a agitar padres de cor”, como contava na entrevista citada. Foi forçado a regressar a Portugal, terminando então o curso de Teologia. Cruza-se com dois dominicanos — frei Bernardo Domingues e frei Mateus Peres — que serão decisivos para que integre a Ordem dos Pregadores, o que aconteceu em 1974, aceitando ser ordenado padre apenas sete anos depois.

Já nessa altura se sentia atraído pela questão da linguagem e da palavra. Em outra entrevista ao Público, em 13 de Janeiro de 2001, dizia que “o primeiro grau de proximidade dos seres, o que nos liga, é a palavra”.

Perto de Umberto Eco

Em Lyon, França, frequentou um curso de Semiótica e estudou a Bíblia com o método estruturalista. Passou por várias escolas francesas, acabando a fazer uma pósgraduação na UNL, onde leccionava Semiótica, E-Textualidades e Hiperficção e Cultura. Por ali ficou, acabando como professor associado com agregação.

Nos últimos anos, dirigiu a Revista de Comunicação e Linguagens. Era também membro do comité executivo da Associação Internacional de Estudos Semióticos e de várias instituições académicas portuguesas e internacionais. Nos dominicanos, presidiu ao Instituto São Tomás de Aquino. E, o ano passado, integrava o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica.

Entre outras obras, publicou A visão de Túndalo: em torno da semiótica das Visões (ed. INIC); Sujeito, Paixão e Discurso. Trabalhos de Jesus (Vega); O fulgor é móvel – Em Torno da Obra de Maria Gabriela Llansol (Roma); A Palavra e o Espelho (Paulinas) e Luz Desarmada (Prefácio), que recolhem homilias ligadas ao calendário litúrgico; e O Nome e a Forma, que reúne a sua poesia. Daqui a dias, sairá Quem vigia o vento não semeia (Pedra Angular), com mais um conjunto de homilias.

Co-director do Dicionário Histórico das Ordens e Instituições em Portugal (Gradiva), José Augusto Mourão traduziu, entre outros textos, A rosa é sem porquê, de Angelus Silesius, Sobre a leitura, de Marcel Proust, e A função da poesia, de Jerónimo Savonarola (todos na Vega).

Temas como o sujeito, a estética ou o sofrimento estão muito presentes na sua obra, que abrange uma grande diversidade de objectos de análise: ciência e religião, o corpo, a literatura, a Internet, o hipertexto são o mote para dezenas de artigos ou abordagens, quer nas suas obras, quer nos textos do site http://triplov.org/. “A rede é uma procura, virtual que seja, multicultural, de encontro com o outro.” Defendia, na entrevista de 2001, que são necessários “netmonges”, mas alertava: “Há uma ilusão de liberdade dentro da Internet, não estamos nada libertos da aranha global que é a censura.”

“Estava mais perto de Umberto Eco”, diz Maria Augusta Babo. “Pela diversidade de abordagens, já que a semiótica tende a considerar que todo o objecto e todo o mundo envolvente são passíveis de ser lidos”.

Era um pensamento aberto, que recusava, como ele escrevia, o silenciamento das “vozes dissonantes”. Ou a “servidão” e a “bajulação, que são as passadeiras do poder”. E que entendia a dimensão estética como fundamental. Aliás, sobre a sua poesia, escreve José Tolentino Mendonça, outro padre-poeta: “A profecia não tem apenas uma dicção ética e social. Ela formula-se também como estética. Na sua intransigente solidão, José Augusto Mourão tem representado o aguilhão e o vislumbre, o combate e a dança, pois é um lugar profético a margem donde nos fala.”

Essa dimensão da estética levava-o a desejar que os fiéis estivessem “de corpo presente” nas missas: “O corpo não está” na liturgia, afirmava, na entrevista a Maria João Seixas. E defendia a atenção às homilias, às orações, aos cânticos, ao espaço da celebração: “A Palavra de Deus é muito mais radical do que todas as outras e, para ser ouvida, precisa de mediações como as homilias, como a alegria e a beleza dos cânticos, como a géstica e os rituais.” E referia o exemplo de “comunidades quentes” como a dos monges de Taizé, em França, onde a liturgia é “a mais emotiva e a mais bela”.

Antes de morrer, José Augusto Mourão doou o seu corpo à investigação médica. No texto "Requiescant in pacem” (“Descansem em paz”, em http://triplov.com/semas/2009/Finados.html), escreveu: “Morrer (…) é exilar-se, romper a ligação com os amigos, uma partida para uma outra morada, uma outra economia.”

Nos últimos tempos de vida, apesar da doença, agradecia a todos os que o visitavam. No poema de questão em questão, diz: “Conduz-nos, Deus,/ de questão em questão,/ de fogo em fogo,/ sem satisfações que ao tempo bastem/ e a nós assombrem.”»

António Marujo, «P2», Público, 10 de Maio de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A confiança na vitória do impossível

«[...] Deixo alguns fragmentos das homilias de José Augusto Mourão que apontam para a fonte da sua confiança na vitória do impossível: "Que desejamos, afinal, deixando de lado os desejos vulgares que não precisam de um Deus para se satisfazerem? Acima de tudo, não morrer, ou não morrer definitivamente; não perder aqueles que amamos - não dizemos que o amor é mais forte do que a morte? Outro desejo: que a justiça e a paz acabem por triunfar. Outro ainda: alguém que nos ame com bondade".
É um desejo com raízes: "Nós sentimos e experimentamos que somos eternos. Sentimos a vida em nós como aquilo em que vivemos, sabendo que não nos damos esta vida a nós próprios". O filósofo M. Fraijó vem em auxílio dessa convicção: "O cristianismo afirma que a noite não nos surpreenderá. O homem é algo mais do que um breve parêntesis entre duas obscuridades: a do nada, de onde vimos, e a do sepulcro, para onde nos encaminhamos. Toda a história do cristianismo é um denodado esforço contra o nada como meta e como origem." (1)
[...] Ana Cristina da Costa Gomes / José Eduardo Franco (2) e o Padre Tolentino apontaram a direcção para o aprofundamento da obra provocadora deste dominicano: "a impressionante ponte (apetece escrever a 'impossível ponte') que ele, quase marginalmente, desenha entre o campo da fé e o da razão, entre a liturgia e a poética, entre a regra e o desejo. Por alguma razão, ele nunca foi um criador confortável, nem para o campo católico, nem para os parâmetros da cultura dominante".

1) - José Augusto Mourão, Quem vigia o vento não semeia, Pedra Angular, Lisboa, 2011, p. 273-274. 
2) - Dominicanos em Portugal. História, Cultura e Arte, Aletheia, 2010.

Frei Bento Domingues, in Público, 15 de Maio de 2011.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

«Entre “pessoas” o tempo nunca é dinheiro, pois cada uma delas é o máximo valor.»


Do evitável utilitarismo à inevitável utilidade, ou duma utilidade que não nos reduza a utensílios.

1. A inevitável utilidade advém-nos da nossa complementaridade essencial e subsidiária, não só descendente, como estímulo e apoio (subsidium) dos corpos sociais superiores aos intermédios e básicos, mas também recíproca, como entreajuda de todos a todos.

Houve e há pessoas que se isolam e abstraem de relações funcionais, tanto quanto podem. Mas só conseguem subsistir com a maior ou menor utilidade dos outros e da própria natureza. Mesmo um espírito tão desprendido e gratuito como Francisco de Assis, agradece a “irmã água” por ser “tão útil…” (Espelho de perfeição, 120).

2. A utilidade pode ser prática e imediata ou simbólica e definitiva, referente aos fins últimos, por muitos procurados, quando não temidos.

A utilidade prática é a que nos possibilita estar agora aqui: respiramos, comemos, bebemos, viajamos, deslocamo-nos, podemos comunicar e ser ouvidos em boas condições… Tudo isto pressupõe uma longa série de utilidades básicas, pessoais e técnicas, da qualidade do ar e dos alimentos aos meios de transporte e comunicação, além de muitas outras habilitações conseguidas e disponíveis, segurança inclusive.

A utilidade simbólica é a que nos possibilita partilhar ideias e saberes, ou sentimentos e expectativas. São sempre resumos disponíveis – arduamente atingidos e disponibilizados -, que nos permitem prosseguir nos vários campos do conhecimento ou da expectativa. Com vários níveis de apuramento e captação, que não devem ser confundidos, a utilidade simbólica pode incluir itens tão variados como ciência, artes, literaturas, tradições ou religiões.

Em suma, um variado complexo de utilidades práticas e simbólicas, cuja “indispensabilidade” se acrescentou e generalizou muitíssimo nas últimas décadas.

3. Podemos até dizer que a composição ou a recomposição social se têm feito em termos de utilidade e funcionalidade mútuas. Em todos os indo-europeus, por exemplo, foi detectável durante séculos e séculos a tripartição entre trabalhadores, que garantiam o sustento material do todo, os guerreiros, que garantiam a defesa, e os sacerdotes, que proporcionavam a segurança última de vivos e mortos.

Poderemos também constatar que, quando outras funções se tornaram possíveis e mais prementes – burgueses, letrados, etc. – aquela trifuncionalidade se alterou, ainda que possa subsistir em novos moldes.

4. Importante foi também, na modernidade europeia e a partir desta, a possibilidade e o alargamento das escolhas individuais, que fizeram retrair em cada um a funcionalidade que anteriormente estava quase sempre predeterminada à nascença, perpetuando padrões sociais ou ofícios herdados.

Isto mesmo permitiu escolher utilidades e até utilidade nenhuma, a escolha entre negócio e ócio, quando não a valorização deste mesmo. Foi um longo percurso, como nos esclarece o seguinte trecho, referente à nossa história “moderna” (sécs. XV – XVIII): “A generalidade das crianças não era objecto de instrução literária: a principal aprendizagem era ainda a de saber viver de acordo com a sua condição social. Para tanto, os nobres entregavam os filhos na corte ou a fidalgos de condição superior. […] Para as crianças das camadas populares, o trabalho era uma realidade mal se achavam capazes de desempenhar uma actividade social e economicamente útil. A maior parte começava mesmo antes dos sete anos a efectuar tarefas que contribuíam de algum modo para a economia doméstica (olhar por irmãos mais novos, limpeza da casa, ajuda na criação de animais, etc.). A entrada no mundo do trabalho era precoce, e podia implicar a ida do campo para a cidade por volta do início da adolescência ou mesmo antes. Rapazes e raparigas podiam ir servir quer como criados de lavoura quer como servidores domésticos; os rapazes podiam aprender um ofício artesanal. Outras formas de deslocação se abriam aos rapazes no início da adolescência: o embarque num navio para a Índia ou a emigração para o Brasil; mesmo a vida de missionário nas terras do Império podia começar muito cedo” (Isabel dos Guimarães Sá - As crianças e as idades da vida. In História da vida privada em Portugal. A Idade Moderna [= HVPP], coord. Nuno Gonçalo Monteiro, Círculo de Leitores, 2011, p. p. 83-85).

5. A revolução industrial, em fases sucessivas, alterou também a natureza dos saberes e da própria ciência. Ao ideal escolástico do saber complexo para o homem completo - discorrendo de aplicação em aplicação pelas artes e a medicina, as leis e os cânones, a teologia por fim -, ou do humanismo renascentista, que detalhou e aprofundou cada ramo, sem nunca perder a ambição universal, seguiram-se urgências de aplicação prática e lucrativa que tanto impulsionaram como condicionaram os objectivos do estudo. Não tanto “o quê”, mas sobretudo o “para quê”, aferido pela utilidade imediata e concreta. Colombo podia colorir de teologia os seus projectos, mas foram as “Índias” que lhe proporcionaram uma armada.

A pouco e pouco, assistimos à redução tecnológica das ciências, que modificou profundamente o seu estatuto, requerendo-lhe aplicação prática e rentável muito célere. Não são apenas os espíritos “enciclopédicos” da escolástica, como o nosso Pedro Hispano, ou do renascimento, como Leonardo da Vinci, que se tornam hoje “impraticáveis”; é o conjunto geral dos saberes que se “desconjuntou”, em tratamentos parcelares, úteis e, quanto possível, rápidos; mesmo agora, quando se quebra a relação directa estudo-emprego. Não é por acaso que a transmissão cultural se torna mais difícil no tocante à universalidade quantitativa e qualitativa – a matemática e a língua.

Cabem aqui alguns comentários a propósito. González-Carvajal, professor madrileno, escreveu o seguinte: “Durante muito tempo foi lugar comum afirmar que a modernidade constituía a ‘era da razão’. Mas essa ‘razão’ não é já a razão dos filósofos, nem sequer a dos cultores da ciência pura, antes a razão dos técnicos; essa mesma que Horkeimer baptizou como ‘razão instrumental’. […] Hoje generalizou-se a convicção de que os únicos problemas importantes são os problemas técnicos. Tal se manifesta, por exemplo, na tendência dos Estados modernos para não proteger as ciências que carecem de aplicações práticas: filosofia, teologia, história, etc.” (cf. Luís González-Carvajal – Ideas y creencias del hombre actual, Santander, Editorial Sal Terrae, 5ª edição, 2000, p. 77).

Talvez agora se esteja a rever tal atitude… Mas, para o justamente conhecido professor de Grenoble, Gilles Lipovetsky, o que está em causa é ainda o ponto fundamental da felicidade humana, ligada mas não esgotável pelos avanços tecnológicos: “Enquanto prossegue a dominação tecnocientífica, perpetua-se a impotência para governar a felicidade. O nosso poder sobre as coisas segue uma curva exponencial; o poder que exercemos sobre a alegria de existir marca passo. O projecto de poder ilimitado dos Modernos atinge aqui, claramente, os seus limites; a felicidade não progride, escapa obstinadamente ao controlo dos homens. É certo que não podemos dissociar a busca da felicidade dos avanços do mundo técnico, e no entanto continua a existir um enorme fosso entre os caminhos seguidos por estes dois universos” (Gilles Lipovetsky, A felicidade paradoxal. Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo, Lisboa, Edições 70, 2007, p. 303).

6. De modo só aparentemente contrário, a utilidade fixa das sociedades antigas deu lugar à utilidade optativa da generalidade oito e novecentista. O que se passou foi antes a desvalorização dalgumas actividades simbólicas e relativamente gratuitas, que algum iluminismo dispensara e algum modernismo contrariara, certamente por se sentiram mais seguros na vida presente e menos temerosos do que sobrasse dela…

As artes transitaram para espaços domésticos e sociais, aí mesmo onde o divertimento se tornou funcional e útil, em novos moldes e com público e consumo sempre crescentes. Pouco a pouco, tornou-se corrente uma linguagem essencialmente inaceitável, como “comprar” e “vender” jogadores, neste ou naquele “mercado” desportivo…

Por outro lado, a avaliação geral das coisas em termos de “utilidade” levou a extinguir muitos centros de produção cultural agora considerados “ociosos” – precisamente aquela “metade dos nossos sábios”, como Herculano considerava os exclaustrados de 1834.

Desapareceram então muitos espaços de assim dita “inutilidade”, precisamente quando ela seria mais viável a prazo, pela superação progressista de “necessidade”. Em seu lugar e por outras razões, disseminaram-se novos espaços de encontro, também mais opcionais e imprevisíveis, num movimento assim resumido em obra recente, das academias setecentistas para os cafés que se seguiram até aos nossos dias: “As academias contribuíram para consolidar os circuitos de circulação das notícias e estimular uma nova forma de sociabilidade. Os membros das várias academias mantêm entre si relações sociais e culturais que extravasam os círculos tradicionais da universidade, da corte e da família. […] Os salões e os cafés criaram oportunidades de interacção social e intelectual, de discussão crítica, através das quais alteraram os códigos tradicionais de participação política e cultural. Mas existe uma diferença fundamental entre ambos: o salão, ou a assembleia, decorrem num espaço privado, não se entra aí sem convite nem se fala aí livremente; o café é um espaço semipúblico (no sentido em que é propriedade privada mas o acesso é, em princípio, aberto a todos) onde se entra e sai à vontade, a qualquer dia da semana e a qualquer hora do dia” (Maria Alexandre Lousada – Novas formas: vida privada, sociabilidades culturais e emergência do espaço público. In HVPP, p. 453-454).

7. Oscilamos entre utilitarismos vários, todos definidores da utilidade e inutilidades. Para uns, é útil o que possibilitar a inutilidade compensatória de trabalhos feitos. Para outros, é útil o que imediatamente se fique pela satisfação individual, mesmo desligada da necessidade de todos, o que também esvazia o trabalho do seu significado humanizante e social: “Na sociedade do hiperconsumo, a principal preocupação do indivíduo não é superar-se, mas poder usufruir de um rendimento confortável para participar plenamente no universo das satisfações proporcionadas pelo mercado. Se alguns intelectuais e alguns grupos utopistas exaltam um modo de vida menos dependente do dinheiro e dos produtos, é pouco provável que esta sabedoria frugal triunfe diante do poder sedutor das felicidades ‘fáceis’ repetidamente anunciadas pelo universo consumista” (Lipovetsky - A felicidade paradoxal, p. 228-229).

Nas últimas décadas europeias, a crítica teórica e prática tem posto em causa o colectivismo e o individualismo, herdados de oitocentos. São sobremaneira questionados pelo pós-modernismo e pelo personalismo, cada um a seu modo. Da segunda guerra mundial herdámos impérios que pareciam sistematizar o colectivismo ou o individualismo, com desenvolvimentos próprios certamente. Mas a trágica interrogação que esse grande conflito nos deixou foi dissolvendo as ideologias em confronto, pela densidade humana que delas sobejava, mais e mais.

Sobraram o desgosto ou o gosto, o horizonte encurtado e disponível, o experiencialismo, mais subjectivo do que a anterior objectividade experimental. Consequentemente, o debate útil - inútil quase perdeu razão de ser, definindo-se em cada sujeito e vontade.

E é ainda Lipovetsky quem nos ilustra isto mesmo, a propósito do próprio design e da sua evolução recente: “O design hipermoderno privilegia o ligeiro, a mobilidade e a adaptabilidade, a associação do funcional e do sentido, do depurado e do convivial, do nómada e do lúdico. É um conforto psicológico e sensitivo que visa o neodesign, ecoando o sistema de referências do hiperindivíduo liberto de barreiras. […] O design intransigente da Bauhaus constituiu-se em torno da fé no progresso e na racionalidade tecnicista do engenheiro; exprimiu uma cultura que glorificava a eficácia pura, o depuramento das formas, a razão conquistadora, a vitória sobre as forças arcaicas do passado. A realidade actual é outra. […] O objecto já não é um hino à racionalidade construtivista e mecanicista, mas à felicidade sensitiva que implica um conforto de ‘rosto humano’, apropriável e habitável” (Lipovetsky – A felicidade paradoxal, p. 198-199).

8. Desenvolvera-se, entretanto, algum “personalismo”, que ultrapassara a oposição individualismo – colectivismo, acentuando a dimensão relacional de cada um, como sujeito de reflexão e decisão, só possíveis com outros e para outros. De algum modo, o debate útil – inútil será resolvido no reconhecimento mútuo de capacidades e disponibilidades.

Gosto, contragosto e desgosto ganharão outro significado, se forem convividos, além de vividos. Será útil o que servir a cada um, servindo também aqueles com quem ele necessariamente coexiste e que reflexamente o “configuram”. E, dizendo “pessoa”, diz-se pensamento e gesto recebidos e comunicados, no trabalho ou na festa, podendo – ou devendo? – ser trabalho festivo e até festa trabalhosa, cuidada e inclusiva.

Sabemos como, para resolver muito mal-estar, é preciso muito estar-com, mesmo sem resultados imediatos e quantificáveis. Mais ou menos como nos é dito que a floresta variada e longeva importa mais para o futuro do que plantio sucessivo de arvoredo monótono e esgotador…

E o mesmo se diga das nossas cidades, para que realizem tal nome: lugares de “concidadania”, urbanisticamente plasmada e possibilitada, proporcionando encontros em que a “inutilidade” anterior se torne agora da maior “utilidade” futura, para um indispensável e solidário civismo, onde o acontecer nasça do conviver. Conservando também a memória histórica e monumental, essa mesma que já foi sacrificada aos resultados rápidos e funcionais que nos esqueceram a tantos, como devir intergeracional sinalizado.

Entre “pessoas” o tempo nunca é dinheiro, pois cada uma delas é o máximo valor. Com a “inutilidade” que finalmente são, ainda que nisso mesmo sejam úteis à personalidade real de nós todos.

Manuel Clemente

Bispo do Porto, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
Conferência de abertura da Experimentadesign 2011
Lisboa, 28.9.2011
{Conferência reproduzida, com a devida vénia, daqui}

«Vai, toma conta da minha vinha.»

«[...]

Meu caro D. José Cordeiro, a tua vida ganha hoje um sentido novo e definitivo. O Senhor diz-te hoje: vai, toma conta da minha vinha. [...].

Nestas belas paragens, a vinha do Senhor tem produzido - e há-de continuar a produzir - belos frutos, com a doçura da santidade, que fazem a alegria do Dono da vinha.»


D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa (Agência Ecllesia)

domingo, 2 de outubro de 2011

«(...) E a amendoeira floriu.»


Hoje, 2 de Outubro de 2011, é ordenado Bispo de Bragança-Miranda José Manuel Cordeiro, autor da Pedra Angular, onde tem editados dois ensaios absolutamente invulgares. O Padre. Do mistério ao ministério, um texto raro sobre a figura do Padre na tradição cristã; e O Grão de Amendoeira, obra que pode bem servir de introdução ao que pensa e ao que sonha este autor, que aos 44 anos de idade se torna o mais jovem dos Bispos portugueses.

sábado, 1 de outubro de 2011

«Os peixes de Herberto Helder»


«[...]
O jovem autor de “O Peixe Amarelo” prendeu-me ao livro desde a primeira linha, pela determinação, pelo método, pela frescura e pela inteligência. E eu, ao (re)ler os textos, percebi que, depois de dois ou três anos, ganharam maior pertinência. Após o rebentar da bolha imobiliária e do “crash” de Outubro de 2008, as considerações e os comentários ganham uma novíssima actualidade. E começo por falar do título, muito bem caçado, que João Wengorovius Menezes foi buscar a Herberto Helder. Era um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. O artista estava a pintar o peixe, mas foi surpreendido por uma súbita mudança de cor do bicho. De súbito, o peixe tornara-se negro, e o pintor foi obrigado a interromper a obra, já que o preto lhe colocava o problema de formar a “insídia do real”, abrindo um estranho abismo. E assim, o pintor percebeu que o peixe mostrava que apenas existia uma lei – e essa era a lei da metamorfose. “E compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo”. A escolha do título do livro não é inocente, usa, afinal, uma metáfora sobre a atitude de que depende o futuro.
[...]»

Guilherme d'Oliveira Martins, «A Vida dos Livros», 15-II-2010.